#REARVIEW | ‘Vai Passar Mal’ é um desfile carnavalesco (quase) nota dez de Pabllo Vittar

Promessa do ano, Pabllo Vittar surpreende com seu álbum “Vai Passar Mal”, que traz uma aposta ousada e uma vibe contagiante, mas com alguns erros de percurso.

'Vai Passar Mal' é um desfile carnavalesco (quase) nota dez de Pabllo Vittar
(foto: divulgação.)

Era fim do ano de 2015, quando o clipe de “Open Bar” – uma versão em português do hit “Lean On”, de Major Lazer e – foi postado no canal de Phabullo Rodrigues da Silva, ou Pabllo Vittar, no YouTube, a atingir a marca de um milhão de visualizações. Hoje, o vídeo está quase batendo a casa dos 7 milhões e, na época, o sucesso do single da cantora, compositora, performer e drag queen levou o DJ e produtor da faixa original, Diplo, a usar sua conta no Twitter para comentar positivamente a respeito. De lá para cá, sua carreira jamais ficou estática. 

“Open Bar” é sample de “Lean On”. O sample ocorre a partir da formação de uma canção por meio de elementos de outra já existente.

Ao começar a ganhar visibilidade, a refratar as luzes dos holofotes para o movimento LGBT nacional, Pabllo teve a ideia de seguir sua vibe enérgica, contagiante para aglutinar duas de suas paixões incontestáveis: o carnaval e a comunidade gay. Contudo, muitos itens para essa união estavam em falta: não tinha enredo, faltava criar adereços, pôr faisões e plumas nas fantasias, obter investimento financeiro, encontrar artistas dispostos a desfilar em sua agremiação, além de encontrar um bom puxador de samba. Logo, em dezembro de 2015, o carnavalesco de mentirinha iniciou os trabalhos a fim de conseguir fazer seu sonho virar realidade. Para isso, seu primeiro passo foi lançar o EP Open Bar, cheio de mais samples de cantoras do pop internacional, como Beyoncé, Ellie Goulding e Rihanna. 

O empenho foi recompensado. No ano passado, quando o comissão de frente intitulada “Nêga” finalizou os ensaios de coreografia em seu barracão, a drag queen deu uma amostra de que tudo nunca esteve tão bem encaminhado. Com pouca letra (nós voltaremos nesse ponto mais tarde), a dança feita pelo single trouxe similaridades que lembravam duas artistas consagradas no cenário brasileiro: Anitta e Ludmilla. Em momento posterior, o jornal O Globo elencou o maranhense como uma promessa para 2017. 

Após a passagem da comissão de frente, o abre-alas, “K.O.”, começou a apresentar defeitos. O problema se estendeu até “Irregular”. A agremiação de Pabllo não abaixou a cabeça, prosseguiu e voltou a sambar na quarta faixa, “Corpo Sensual”, gravada com o cantor Matheus Carrilho. De um verso presente nela, vem o título do álbum. 

“Tara” é a canção mais elaborada em questão de conteúdo verbal. É a esperança de que o melhor está por vir. Provavelmente, uma tentativa vã de compensar os ouvintes pelo pouco aprofundamento de vocabulário na composição das demais letras. Inclusive, a escassez de conteúdo não era um ponto negativo, algo a perder um décimo em algum quesito, mas tornou-se, por ser um fato recorrente, talvez, pelo objetivo de aumentar o público ou apenas um vício da equipe de compositores. Repito: talvez. 

A sexta faixa, “Todo Dia” é o samba-enredo presente na tracklist e é um smash hit previsível, que inclui a participação de Rico Dalasam e que deu a possibilidade para a cantora levantar tanto a arquibancada quanto quem somente assistia seu carnaval país afora. No YouTube – site em que o sample de “Lean On” fez Pabllo ascender – o videoclipe já possui 9 milhões de visualizações. É um lacre!

“Todo Dia”, com participação de Rico Dalasam, possui 9 milhões de views no YouTube.

Por falar em “Lean On”, o elogio de Diplo para “Open Bar”, no Twitter, não caiu no esquecimento. O elogio culminou na parceria deliciosa para “Então Vai!”, a sétima faixa.

O carnaval de Vittar permanecia ótimo, permanecia babadeiro… até a chegada de uma tempestade de verão bem na hora de “Ele é o Tal”. O tempo fechou. Os raios não atingiram a canção como um todo, mas, de fato, ela soa como um trabalho não terminado no prazo. Pior: com tantos agregados – sendo eles, Laura Taylor e Lia Clark –, a faixa aparenta ser um trabalho escolar confuso, feito às pressas, onde as pessoas querem os pontos a qualquer custo, não um trabalho carnavalesco para pisar, o propósito maior. É meia boca! Convidar artistas amigos para gravar e deixa-los cantar menos de cinco versos demonstra deselegância, falta de senso, além de não enaltecer a contribuição deles. 

 Depois desse momento tenso, a chuva foi embora para as últimas alas e os últimos carros “Pode Apontar” e “Pronto pra Te Amar” poderem brilhar, numa nova tentativa de compensação. Apesar dos esforços, no final do desfile, “Indestrutível” passa pelos ouvintes, a compensá-los e a resgatar os motivos pelo quais eles adoram a cantora: a história inspiradora de vida e de superação, somada à sua referência, em todos os sentidos, seja ela para a comunidade LGBT ou não.

Em síntese, embora “Vai Passar Mal” possua uma aposta ousada e uma vibe contagiante, o álbum parece um desfile de carnaval, que sacode a massa, no entanto, é permeado por erros capazes de deixar a agremiação de Pabllo Vittar fora do sábado das campeãs.

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