[ESPECIAL] A reinvenção da palavra “cantor”: Beyoncé, Katy Perry, Troye Sivan e Lady Gaga

Em uma matéria dividida em três partes, mostraremos como dez artistas do século XXI têm reinventado o significado da palavra “cantor”, usando as luzes altas sobre si para iluminar causas humanitárias mundiais, em que essas luzes sequer chegam. Nesta primeira parte, temos Beyoncé, Katy Perry, Troye Sivan e Lady Gaga.


Nos últimos séculos, os artistas têm desempenhado papéis de influências diretas ou indiretas nas mais diversas camadas de suas sociedades. Como exemplos, podemos citar os iluministas, na Europa, e o movimento literário modernista, no Brasil. Contudo, outras questões se achegaram, de cunhos políticos, sociais e/ou humanitários, por causa dos desdobramentos naturais das civilizações em união ao espírito de insatisfação. Atentos a isso, esses artistas buscam lutar a favor daquilo que visa tornar o mundo um lugar melhor e mais justo a todos. Para realizar isso, em atos altruístas, usam todas as suas forças, em discursos, participação em protestos e até mesmo em suas canções. 

Beyoncé



Com uma carreira permeada de letras femininas e feministas de sucesso, como “Independent Women” (Destiny’s Child), e cheias de sensualidade e soberania, como nos smash hits “Single Ladies” e “Run The World”, Beyoncé é uma das artistas precursoras do que, neste século, viria a ser o empoderamento feminino, quando as plataformas digitais sequer existiam e a internet era discada. 


Uma década se passou. A artista percebeu que tinha holofotes suficientes sobre si para poder refratar suas luzes em algo maior. Essa percepção se deu em 2012, por meio de sua nomeação, feita pela ONU, como embaixadora no Dia Mundial Humanitário. Na época, a mãe de Blue Ivy emprestou a belíssima música “I Was Here”, do quarto álbum, o “4”, para o projeto, que recebeu o mesmo nome da faixa cedida. 


“I Was Here” foi gravado na ONU, em Nova Iorque. 


No ano seguinte, a cantora trouxe seu álbum autointitulado e surpreendeu o mundo,ao utilizar sua influência e o clipe de “Pretty Hurts” a fim de deflagrar, alertar e criticar com veemência os métodos de obtenção do corpo ideal, mostrando a trágica realidade ocorrida por trás das coxias do palco de um concurso de beleza, quer seja ele real ou apenas uma metáfora. 

“Pretty Hurts” traz a icônica frase que virou lema dos Beyhives: “Minha inspiração na vida é ser feliz”.
Em 2016, usou seu renome novamente, gerando polêmica, no jogo de futebol americano mais visto, o Super Bowl 50, onde introduziu a faixa “Formation”, lançada em fevereiro, a qual fez parte de seu “Lemonade”, álbum visual indicado ao Grammy 2017. O bafafá se deu pela canção veicular uma crítica ao racismo no território de Knowless, junto com referências às mortes de negros por policiais nos últimos anos.

Ironicamente, a canção se tornou uma espécie de hino nas vidas dos pertencentes à comunidade retratada, que presenciou o aumento da sensação de insegurança quanto ao seu futuro, devido às declarações do agora presidente, Donald Trump.

Esta mulher quebra tudo, não é mesmo, amigos?


Katy Perry

E Beyoncé não foi a única a se opor ao governo atual dos Estados Unidos. Katy Perry se juntou a esse tipo de ‘intentona contra Trump’ e tocou nos demais pontos em que “Formation” não pôde tocar.
Em agosto de 2016, a artista revelou certa pretensão em criar algo para conectar, relacionar e inspirar pessoas. Para o radialista Ryan Seacrest, ela contou que estava tentando algo diferente. Isso até fevereiro deste ano, pois, indignada com o resultado das eleições presidenciais, a culminar na vitória do candidato do partido republicano sobre a candidata democrata Hillary Clinton, em clima de protesto, “Chained To The Rhythm” chegou aos nossos ouvidos. A canção escrita por Sia Furler, co-escrita por Perry e produzida pelo genial Max Martin era a ponta do grande iceberg.
Nos dias posteriores ao lançamento, a cantora apresentou a letra do novo single, chamando de utopia, as ideias propostas pelo presidente eleito e organizando visualmente seu protesto musical.  Em seguida, o vídeo oficial foi lançado. Nele, a compositora expôs fatos acerca da desigualdade social e da imigração ilegal no país – temas recorrentes durante as sabatinas eleitorais.

O vídeo multicolorido chamou atenção, por veicular uma mensagem séria e crítica, e também pelas dezenas de metáforas explícitas, inclusive o próprio parque de diversões, somente aos visualizadores atentos, que, de fato, estavam ‘acorrentados ao ritmo’, como diz o título da canção.

No decorrer de sua videografia, Katy já possuía muitos vídeos bem produzidos, cheios de cores que foram – e são – um sucesso e que se tornaram um símbolo de sua carreira.Dentre eles, temos “California Gurls”, “Roar”“Last Friday Night” e “Firework”Esse último videoclipe citado acabou inserido na comunidade LGBT, por ajudar pessoas a lidar com o preconceito e a diária aceitação pessoal quanto às suas orientações sexuais.

No mês passado, o maior grupo ativista LGBT dos EUA, o The Human Rights Compaignprestou homenagem a Katheryn Elizabeth Hudson – nome de batismo de Katy –, com o prêmio ‘Igualdade Nacional’, por discursar a respeito.


Firework: Katy Perry canta que somos fogos de artifício e incentiva a superação da solidão
 e do medo de assumir quem somos.
Antes de ‘Chained’ e do prêmio vindo da T.H.R.C.a artista californiana recebeu da UNICEF a nomeação de embaixadora da boa vontade, em 2013. Ela percorreu o globo em prol do encorajamento dos jovens na discussão sobre aquilo que eles consideravam mais importante em suas vidas, pensando em soluções para eventuais desafios. No fim, um vídeo acompanhado da canção “Unconditionally”, de seu álbum “PRISM”, foi produzido, a partir de imagens capturadas nas missões, visando mostrar a rotina de uma embaixadora. Confira!


Assim como Beyoncé, Katy Perry tem procurado fazer de seus limões uma limonada.

Troye Sivan
Desde que se assumiu gay, Troye Sivan vem recebendo manifestações de apoio da comunidade LGBT. Em razão disso, o YouTuber, nascido na África do Sul e naturalizado na Austrália, procurou usar o clipe da faixa “Heaven”, presente em seu álbum de estreia, “Blue Neighbourhood”, para defender a causa e protestar contra o presidente do chamado Mundo Livre, Donald Trump. Propositalmente, o vídeo foi lançado um dia antes da posse do republicano.

A letra da canção transcreveu as dificuldades em conciliar questões religiosas e a orientação sexual pelo artista. O grande questionamento se deu pela capacidade ou incapacidade de alcançar o Paraíso sem perder a essência. Confira o refrão!
O vídeo trouxe imagens de casais gays, além de manifestações populares em prol dos direitos dos LGBTs e a difusão do vírus do HIV ao redor do planeta, cuja culpa caiu, por muitos anos, sobre os gays, por serem os mais contaminados pelo vírus. Vale ressaltar: até o fim do século passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) considerou a homossexualidade como doença.

E há boatos de que isso não tinha na época dos nossos avós.


Lady Gaga 

Para terminar esta primeira parte de nossa matéria especial, precisamos falar de Lady Gaga e de seu amor platônico pela comunidade LGBT.

A história dos dois começou bem no início da carreira da cantora, um ícone gay nos dias de hoje. Obstáculos impediam a artista de obter transmissão nas rádios. Inclusive, ela conferiu seu princípio de sucesso aos fãs homossexuais, nos créditos de seu primeiro álbum, onde ela fez agradecimentos a uma companhia de vendas LGBT, a FlyLife, que trabalhava com a gravadora Interscope, para quem Gaga também trabalhou.

E aquele foi só o jantar romântico. No primeiro semestre de 2008, a artista se apresentou em uma premiação transmitida por um canal LGBT de TV, Logo, com o single “Just Dance”. No mesmo ano, participou da Parada de São Francisco. Após o lançamento do “The Fame”, “Poker Face” foi revelada como a canção que deflagrava sua bissexualidade.


“She’s got me like nobody”, canta Lady Gaga, ao assumir sua bissexualidade.
Conforme o tempo se passou, os encontros ficaram difíceis de serem escondidos. E em setembro de 2009, ela recebeu o pedido de namoro, por meio do prêmio de Artista Revelação, na premiação anual do canal Music Television, o MTV Video Music Awards. Contudo, aceitou e oficializou tudo no mês seguinte, durante a Marcha Nacional pela Igualdade, onde ela deliberou a respeito da importância em sua carreira que o evento possuía. ‘Abençoado seja Deus e abençoados sejam os gays’, disse em sua despedida, beijando sua namorada, a comunidade.

Em 2010, lançou um vídeo com o propósito de estimular seus fãs a entrarem em contato com políticos para impossibilitar uma política militar dos EUA, que proibia gays, bissexuais e gays de prestarem serviços ao exército enquanto estivessem fora do armário. Isso ocorreu pós discursar em uma reunião de mesma pauta.

2011 chegou à vida do casal. “Quem fala demais, pouco faz”, alguns dizem. E Lady Gaga definitivamente sabia disso, quando, com pouco mais de um ano de união oficializada, decidiu reforçar seu amor e sua gratidão pela fã-base, composta em maioria pela comunidade que sempre a acolheu, num grande ato: o primeiro single e carro-chefe “Born This Way”, pertencente ao álbum homônimo e polêmico. Na canção, a interprete do hit “Bad Romance” prega a liberdade de escolha, a aceitação e o respeito às diferenças. 



Nos versos ‘Don’t be a drag/ Just be a queen’ (Não seja uma rebaixada / Seja a rainha, em tradução livre), a compositora ainda brinca com o termo drag queen (rainha rebaixada), para enaltecer as pessoas participantes de uma camada dos LGBTs que costumava – e costuma – ser esquecida e inferiorizada nas sociedades.

Quase no fim da segunda faixa do álbum, um último recado se achega aos ouvintes de todas as etnias, crenças, ideologias etc.:
Don’t be a drag, just be a queen
(Não seja rebaixada, seja uma rainha)

Whether you’re broke or evergreen
(Seja você rica ou pobre)

You’re black, white, beige, chola descent
(Seja você preta, branca, parda ou albina)

You’re Lebanese, you’re orient
(Seja você libanesa, seja você oriental)

Whether life’s disabilities
(Mesmo que as dificuldades da vida)

Left you outcast, bullied or teased
(Te deixem abandonada, assediada ou importunada)

Rejoice and love yourself today
(Exalte e ame a si mesma hoje)

‘Cause baby, you were born this way.
(Pois, querida, você nasceu assim)

Assim, anos e anos de namoro, carinhos, mimos e discursos vieram. Álbuns pop também. No entanto, certo dia, ameaçaram e feriram a menina dos olhos de Gaga. Esse dia ficou conhecido como o Massacre de Orlando, em meados do ano de 2016. Em um palanque, a cantora discursou pelas vítimas da boate LGBT PULSE.


Não, não foi “Perfect Illusion” nem “Cilada”, meninos do Big Molejo. Aquele havia sido o pedido de noivado mais triste que alguém podia receber. Mas aquele havia sido o estalo inicial na mente da talentosa performer, afinal, 2016 foi ano de votação presidencial nos EUA. Entre os candidatos à presidência que se destacavam estava um homem: Donald Trump. (Sim, a matéria se tornou uma perseguição involuntária ao Trump. É aquela música de funk: ‘Fazer o quê?…’.).

Procurando defender sua menina daquele que pretendia agredi-la, a Mother Monster, apelido de Lady Gaga, utilizou suas redes sociais  bem como outros artistas, contrários ao possível governo do dono bilionário da Trump Tower , a convocar pessoas para irem às urnas para votar  na democrata Hillary Clinton , no segundo turno das eleições. 

Em sua conta no Instagram, Lady Gaga convoca pessoas para votar.

Apesar dos esforços da nova iorquina, o resultado soou tão impressionante quanto sua voz. No caso, para ela, impressionante em péssima conotação. Trump triunfou. 

Mother, que prometeu amar sua noiva para sempre, não cedeu. Nas horas posteriores ao anúncio da vitória republicana, participou de um dos protestos de repúdio ao atual presidente. Uma fotografia foi tirada naquele dia. Nela, aparece Stefani Joanne Angelina Germanotta, levantando o pequeno cartaz branco, que,  em tom de ironia com o nome do chefe de Estado, carregava os dizeres “Love trumps hate” (o amor supera o ódio, em tradução livre). O cartaz ascendeu na internet e rodou o mundo afora. Através desse ato, Gaga reforçou sua promessa.
Foto: The New Age / Reprodução.
Meses após a tristeza da perda nas urnas e as manifestações populares e artísticas, Germanotta anunciou o local e a data de seu casamento com a comunidade LGBT. O evento aconteceria no intervalo do Super Bowl 51, em fevereiro de 2017.

Na grande noite, ela demonstrou gratidão para com sua futura esposa, em uma publicação no Instagram (@ladygaga):


“Quero dizer obrigado aos meus fãs, por torcerem por mim em todos esses anos. […] Dedico cada segundo ao amor, diversidade, compaixão e espírito selvagem de nossa fã-base. Para aquele garota que se sentia indesejada, ou o adulto que lembra o quão difícil foi encontrar aceitação. Isto é para você. É também para aqueles cujos corações e mentes se abriram à nossa mensagem. Obrigado por acreditar em nós para que pudéssemos estar aqui, hoje. Monstrinhos, este é o seu palco. E eu vou deixar meu coração nele para que você nunca se esqueça disso. Vamos lá! 
Beijos e abraços. 
Com amor, Gaga. 
PS: Eu amo muito vocês”.
A belíssima cerimônia, nós conferimos abaixo:


Nós não sabemos por quanto tempo essa união durará e como terminará, mas a cena foi linda e nós não vamos atrapalhar esse casalzinho aí, igual a Naiara Azevedo dos “50 reais” fez. 

E é com os aplausos de Lady Gaga a ela mesma, para Beyoncé, Katy Perry e Troye Sivan que finalizamos a primeira parte de nosso especial  “A reinvenção da palavra ‘cantor'”. (A produção gritou que fazer “Ah…” triste pode). 

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