Decepcionante, ‘Os Dez Mandamentos – O Filme’ não entrega tudo que promete

O que tinha tudo pra ser uma história de sucesso, cravou um fracasso nas telas de cinema. ‘Os Dez Mandamentos – O Filme’ estreou nesta quinta (28) em mais de 1000 salas, batendo um recorde de bilheteria, com mais de 3 milhões de ingressos antecipados vendidos, mas, como quantidade não significa qualidade, o longa deixa a desejar em diversos pontos. 

Vou contar a minha experiência nas linhas a seguir, confira!

Moisés (Guilherme Winter)  na cena de abertura do Mar Vermelho. (Foto: Reprodução). 

De cara achei interessante a proposta de colocar Josué (Sidney Sampaio) para narrar a história, isso mostra e muito bem a cultura hebreia de passar sua tradição de geração em geração. Tanto que vimos um filme inspirado nessas histórias, mas além disso, logo os defeitos começam a aparecer.

O filme enxugou todos os meses de novela exibida. “Ah, Lucas, a proposta era essa.”. Eu sei! Mas eles não fizeram isso da maneira correta, a edição frenética destruiu o entendimento da história. 

Explicaram o decreto do rei de matar todos os meninos nascidos entre os hebreus do Egito. Moisés nasceu escondido numa gruta, e o filme não contou que os pais o esconderam por três meses em casa. Na cena seguinte ao nascimento, eles já estão e são descobertos na vila e Joquebede, sua mãe, decide colocá-lo no cesto que o levará para a princesa Henutmire (Vera Zimmermann), enquanto Anrão (Paulo Gorgulho) enfrenta os oficiais egípcios. Ninguém sabe o desfecho desse acontecimento. 

Moisés é levado ao palácio, o longa mostra Joquebede sendo sua ama de leite e conta até sua separação da mãe de sangue aos três anos, quando a princesa decide criá-lo como príncipe. O time-lapse é mostrado e já entra em cena o Moisés adulto (Guilherme Winter) e o filho do Faraó e futuro rei, Ramsés (Sérgio Marone), e são amigos. 

A partir daí senti falta de trama no filme. Eles começaram a mostrar flashbacks do que houve na novela, sem eira, nem beira. Não mostraram a disputa de Moisés e Ramsés por Nefertari (Camila Rodrigues). Aliás, Nefertari, uma das protagonistas, só falou duas vezes em todo o filme. Não mostraram as grandes maldades de Yunet (Adriana Garambone), a base dos grandes acontecimentos na novela. Não apareceram personagens pra dar liga na história, aquele fermento de emoção, de querer avançar, de saber onde e como vai acabar.

Triângulo amoroso de Moisés, Nefertari e Ramsés explorado na novela foi extinto no filme. (Foto: reprodução). 

Quando digo que faltou trama, é o mesmo que dizer que comi pão seco, sem uma manteiga ou nutella pra dar sabor. Se não tivesse a narração da história, os mais leigos não entenderiam nada e nem o porquê de aqueles personagens estarem ali e de fazerem o que fizeram. Não só a trama principal, mas as tramas paralelas foram totalmente inexistentes no longa. 

Yunet só foi ‘vilã’ por mentir para a princesa e contar a verdade para Moíses, que, a partir dali, foi atrás da sua família de sangue. Ninguém entende porque o príncipe chega ao ponto de querer saber quem é sua família, nem porque precisa fugir para o deserto após matar um oficial egípcio que maltratava um escravo. Faltou o ódio que o Faraó Seti (Zécarlos Machado) sentia por Moíses. Então a ida atrás de seus pais, a fuga, o desespero dos personagens fica tudo sem nexo, sem um motivo claro. Muita informação sem uma lógica. 

Uma das cenas mais absurdas aconteceu com a chegada de Moisés em Midiã. A cidade fica no meio do deserto, e ali ele conheceria o verdadeiro amor de sua vida, Zípora (Gisele Itié). Depois de disputar por anos o amor de Nefertari com Ramsés. (Isso só aconteceu na novela). No filme é assim: Moisés viu moça no poço, pela trilha sonora a gente deduz que ele se apaixonou à primeira vista; defende-a junto com as irmãs de outros pastores; é levado até a casa da família, em que o pai lhe dá hospitalidade; durante a madrugada quase é assaltado por Zípora, ele a impede; na cena seguinte, após uns flashes, se casam. Assim, na lata, sem trama, sem amor, sem emoção. Cru. Todo filme que se preze, deve ter um romance pra aquecer a história, pro protagonista ter um porquê de lutar, ir atras de seus objetivos e propósitos. Ali é só mais uma cena, que se fosse recortada, não faria falta, pelo jeito que foi mostrada. 

E então, finalmente, Moisés recebe o chamado de Deus pra ser o libertador do povo hebreu. E ele teria que deixar sua família, agora já com dois filhos e Zípora. Como não teve um romance, como não fomos tocados com a relação deles, a separação não é sentida pelo público. São só mais três pessoas no meio de várias outras que Moisés tem em sua vida. Lembro que chorei oceanos com isso vendo a novela, no filme, deu tédio. 

Separação da família não teve emoção alguma. (Foto: divulgação/Record). 

Então ele retorna, encontra o irmão, Arão (Petronio Gontijo), no meio do deserto (?), sem mostrar que Deus chamou os dois, que Arão era revoltado e já não acreditava mais em nada e começa a sequência mais esperada. As dez pragas. Isso foi bom. O que levou um mês inteiro na TV, foi mostrado com fidelidade no filme. Mesmo rápido, deu pra sentir a agonia dos egípcios em cada uma das pragas seguintes que viriam, por causa do orgulho de Ramsés, já Faraó, após a morte de seu pai. O final das pragas culmina no ápice da morte dos primogênitos. Se Ramsés não libertasse o povo hebreu, os primeiros filhos de cada pessoa que não tivesse a “marca do sacrifício” nas portas, morreria. E assim aconteceu. O momento que mais senti emoção, ufa, no filme, foi no último encontro dos antigos amigos, se despedindo. Um corte de câmera pra colocar um colírio nos olhos do apático Moisés (algumas lágrimas, mesmo artificiais, são boas, né) e um sincero adeus. Foi o melhor do filme. 

E o povo começa seu rumo à Terra Prometida. E uau, Nefertari fala, e cria a única trama do filme. Ela pede vingança, ela quer a cabeça de Moisés por seu filho ter morrido na última praga e instiga o Faraó. “Não seja fraco, Ramsés.”. Senti que a coisa iria andar, mas não andou por muito tempo. 

Faraó colocou todo seu exército pra ir atrás dos hebreus até às margens do Mar Vermelho, Deus como uma nuvem de chamas, impede o caminho enquanto Moisés corre pra estender o cajado e abrir o mar, a cena mais cara de toda a produção. BOOOM! O mar se abriu e o povo começa a correr pra passar por ele. Moisés grita pro povo ir rápido, pelamor, pra esperar milhões de pessoas o braço deve ter doído, né, nom?! Quando o mar vai se fechar e matar os militares inimigos que tentavam atravessar também, um erro técnico: a água bate nas rochas, só que essas rochas continuam secas. Ok, um errinho de nada, só eu devo ter percebido isso. E acaba por aí a vida de escravos no Egito. 

O filme acerta em mostrar Deus escrevendo nas rochas Os Dez Mandamentos, acerta em contar sobre a morte de Moisés (por isso Josué narra), mas pra finalizar, o seu último e mais fatal erro, que daria caso de Procon, na certa, é o “final inédito e surpreendente” que eu estou esperando até agora. Acabou igual à novela na TV, só mudou o texto.

Moisés e Josué retornam do Monte Sinai com as tábuas da lei. (Foto: reprodução). 

Se tem uma palavra para o filme, em comparação com a novela é: DECEPCIONANTE. Se eu indico? Hmmm, não. Mas vejam e tirem suas próprias conclusões. Se vale o ingresso? Hmm, em São Paulo, o cinema, em média é R$ 18, então não vale, tem filmes, bíblicos até, em cartaz que são melhores: ‘Quarto de Guerra’, por exemplo. 

Ah, já sei: o pessoal da Igreja Universal vai me chamar em todas as redes sociais possíveis de mentiroso, mídia tendenciosa e blá blá blá, enfim, obrigado pelo ingresso pra ver o filme, ganhei de vocês (é, se eu tivesse comprado o ingresso, estaria amargamente arrependido), mas é a realidade e a sinceridade. Poderia ter sido melhor, até bom, mas não foi. A gente erra pra acertar, sejam humildes e aceitem as críticas e façam melhor no próximo. Vocês conseguem!

Por. Lucas Nascimento.

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