Entre bonecas e sexo.

Por. Rafaella Rizzo.
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Estou na rua Tuiuti, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, em frente ao prédio que é um dos últimos da rua.
Aperto o número do apartamento, me identifico e a moradora avisa que já está a caminho. Pouco mais de dois minutos depois uma senhora abre a porta. Ela é bem pequena, não deve medir mais do que 1,60, tem pele negra, cabelos pretos, curtos e lisos, resultado de uma escova muito bem feita, acredito. O batom vermelho dá destaque ao seu rosto. Ela me recebe com bastante alegria, um largo sorriso e um abraço apertado. Subimos um lance de escadas em direção à sua casa. Ela vai me perguntando como estou entre outras perguntas típicas de um começo de papo tímido. Peço licença, entro e cumprimento um senhor e um jovem que estão conversando animadamente no sofá. Ela é Edileuza Teixeira e os homens são seu marido Romualdo e o sobrinho que está treinando para ser jogador de futebol. Ele é do Nordeste e está em São Paulo temporariamente.

Pergunto se podemos começar a conversa e já sugiro a cozinha, um lugar silencioso em que não seriamos interrompidas, além disso, posso olhá-la nos olhos enquanto falamos. Aproveito e aviso:

– Dona Edileuza, já coloque dois copos de água na mesa pra senhora poder molhar o bico. A conversa vai ser longa!

– É verdade, você não está com pressa né? Tem algum compromisso depois daqui?
– Não, não tenho nada marcado, temos o tempo que for preciso para você contar sua história.
Ela ri, vai à geladeira e pega uma garrafa de refrigerante e deixa dois copos da bebida sabor laranja em cima da mesa. Ela falou por cerca de uma hora e meia, mas curiosamente o meu copo acabou primeiro. Eu também mais ouvi do que perguntei, era como se ela tivesse tudo na ponta da língua, pronto para mim. 
Edileuza têm 49 anos de idade, mas aparenta ter menos. É empresária, possui uma corretora de seguros. Tem um olhar sereno, mas seguro, um rosto muito bonito e iluminado.

Acontece que nem sempre foi assim.

Edileuza Teixeira Jesus nasceu em 1963, numa família pobre que morava no município de Imperatriz, no estado do Maranhão. Na época, um povoado com cerca de 1.500 pessoas.
Desde pequena ela conheceu o inferno por meio de uma prática comum, não só naquele povoado, mas em vários outros, principalmente no Norte e Nordeste do Brasil: o abuso sexual, que ela sofreu desde os 9 anos de idade pela pessoa que deveria protegê-la e amá-la: o próprio pai. “Lá a pedofilia era comum. Todo mundo sabia que isso acontecia, mas ninguém falava nada. Quase todas as meninas da minha época passaram por isso. Muitas vezes enquanto brincávamos na rua algum adulto aparecia e conseguia abusar da menina ou algum menino que também estivesse brincando com a gente, um tio, um primo. Mas não havia denúncia, porque isso era normal, comum”.

O pequeno povoado também escondia um comércio monstruoso: a prostituição de meninas. Além de ser abusada pelo pai, ela também foi vendida. Ainda criança, acabou se tornando prostituta. 

Continua na próxima semana.

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